Manifesto COAME

A verdade é que eles morrem de saudade da época em que podiam nos jogar nas fogueiras. No sentido literal.  

Nós, as fêmeas, as pretas, as indígenas, as trans, as cis, as bruxas, as putas, as pobres, as LBTs. As amantes, as mães, irmãs, filhas, avós, netas. Nós, as candomblecistas, umbandistas, as evangélicas, cristãs, wiccanas, atéias,  ayahuasqueiras,  espíritas, islãmicas, hindus, tantrikas, judias. Mulheres de todas as bandas. 

Nós, que temos nos apropriado, ocupado e dominado a internet e a lógica de Rede, tecendo uma Teia cuja potência estamos agora descobrindo.  

Assim, nós nos tornamos um problema para eles, que agora buscam formas de superar esse problema. Linchamentos virtuais, assédio moral, escárnio, perseguições, ameaças. Qualquer boçal pode dizer o que pensa. A internet seria uma ferramenta teoricamente neutra nesse sentido, que possibilitaria que todos tenham voz igualmente. 

Porém,  o que acontece quando se dá poder da palavra igualmente para vítimas e abusadores? Para opressores e oprimidos? Amplifica-se a opressão. Sim. Pois apesar da ferramenta ser teoricamente neutra, as estruturas socias e legais não partem de lugares equânimes. No sistema de justiça do Estado deste tempo e espaço, acusar um homem de violência nas redes é crime de difamação e calúnia. Fácil de ser comprovado. Ilegal. Agredir uma mulher, porém, é fácil de fazer, difícil de provar, e lento – surrealmente LENTO – de condenar. E quando há condenação, há atenuantes, relativizações. E o processo de denunciar é agressivo com a vítima. 

Uma mulher violentada no Brasil é uma mulher em apuros. SÉRIOS apuros.  
O fim de um abuso, de um estupro ou de uma tentativa de feminicídio, para a vítima é só o começo de um pesadelo.  

Com uma bomba-relógio na psique, uma vida virtual que desabrocha na sociedade, cada vez mais impactante e decisiva na vida não-virtual, e um sistema jurídico jurássico, lento e patriarcal, a vítima não pode falar abertamente nas redes (virtuais ou de amigos) que foi violentada – porque é crime. Calúnia, difamação. E se decidir denunciar formalmente tem que se submeter a mais violência – a não ser que ela de muita sorte de ter a acesso uma delegacia da mulher. Ir numa delegacia (ambiente nada apropriado pra uma vítima de violência), muitas vezes sendo atendida por homens. E homens nem nenhum tipo de sensibilidade para tais casos. Esses homens questionarão sua palavra, farão com que ela conte sua história várias e várias vezes. Perguntarão detalhes sórdidos, dolorosos, íntimos, viscerais. Anotarão tudo. Em seguida, ela será encaminhada a ir a um médico legista. Eles a desnudarão, olharão marcas em seu corpo, farão exames. Se houve estupro, abrirão suas pernas numa mesa ginecológica e coletarão material para análise. Em seguida, entregarão a ela remédios para evitar gravidez e doenças transmissíveis por secreções. Esses remédios mexerão com seus hormônios, de um corpo e psique já detonados, durante meses. Mas se ela não os toma corre riscos ainda maiores, pois o aborto ainda é tabu e ilegal em mtos casos e o risco de ISTs é real.  

Uma vez que tudo isso é feito, vocês podem pensar que ela está livre pra falar da sua história… Mas não. Pois agora o processo corre em segredo de justiça. E falar sobre ele, também é crime.  

Mas os abusadores, enquanto isso, são livres e apoiados em dizer o que bem entenderem. No virtual e no real. A quem bem entenderem. Enquanto a mulher se submete ao Estado no processo de denunciá-lo, ele já semeia nas mentes alheias o quanto a fulana (vitima), é desequilibrada, é louca. Inventa histórias sobre ela se precisar. Cria narrativas que ataquem seu caráter, sua dignidade, sua palavra. Expõe os segredos dela que souber. Ele mina a credibilidade dela de forma muito mais rápida e eficiente, do que a justiça do Estado atua, julga e condena. E mesmo no julgamento do Estado, em especial de casos dessa natureza, a opinão pública tem um imenso peso. 

Ele, tem medo de ir para a cadeia. Ele tem medo de, na cadeia, ser estuprado por outros homens como ele. 

Ela, já foi estuprada. Tem medo de um dia não aguentar a dor e se matar. Tem medo de algum dos amigos dele achá-la de matá-la. Ela está silenciada, submetida e violentada pelo abusador e depois espoliada pelo próprio processo da denúncia.  

Toda a sociedade o respeita como cidadão de bem. 

Ela, está sozinha. 

Se ela tiver sorte, terá uma ou duas pessoas que a amem e que acreditam nela.  
Se ela for rica, poderá pagar algum psicólogo ou drogas que a ajudem a lidar com tudo isso. 
Mas ainda assim, ninguém pode sentir por ela a dor e as sequelas do abuso. No aspecto de vivência, ela está sozinha. 

Por que alguém denunciaria nesses condições? Não seria mais fácil calar-se? 

Sem dúvidas que sim. 
A maioria não denuncia. 9 a cada 10 vítimas se calam nesse país nesse tempo. 

Mas todas elas assistem, em seguida, seus abusadores seguindo suas vidas normalmente. Sendo amados, respeitados, protegidos… e seguindo a abusar de outras mulheres. Muitas vezes, sistematicamente. Uma depois da outra. 

O campo de dor dessas mulheres é de enlouquecer. A maioria pensa em tirar a própria vida. Algumas tentam. Algumas conseguem. 

Das que permanecem, permanecem fragilizadas, doloridas, traumatizadas. Na maioria das vezes sem o amparo psicologico adequado. 

Estratégia de aniquilação. 
Guerra declarada contra as mulheres, contra o feminino, contra o diverso. 

Estupro, abuso, violência – são armas de guerra nessa guerra em curso. 

Em 2018, porém, algo muda. 
Dá pra sentir no ar… O Feminino começa a se movimentar, começa seu processo natural e espontâneo de regeneração e mudança… E as mulheres estão atentas. 

Eis que surge um chamado nas redes sociais. Alto e bom som. “INCÊNDIO!” Convocando mulheres que tenham sido abusadas por líderes espirituais, os homens socialmente mais respeitados e admirados da sociedade por seu contato próximo e inquestionável com o próprio Deus. Esses cuja reputação e palavra são mais intocáveis. Estes, que usam-se dos momentos de maior fragilidade, dor e vulnerabilidade das pessoas (que é geralmente o  estado em que estas procuram pela espiritualidade) para abusá-las. Estes, que criaram grupos, egrégoras, comunidades e sistemas coletivos diversos para criar contexto propício para cometer abusos sistematicamente de todos os tipos: financeiro, sexual, psicológico, emocional. E por cima de tudo isso, o silenciamento, que é, por si só, também uma violencia.  

Um chamado, amoroso, colorido e vibrante partindo de algumas poucas mulheres, direcionado a todas as mulheres que, desses homens, sofreram violência – e sob a promessa de anonimato e sigilo totais. Usando do poder e da velocidade da internet para isso. Esse chamado tem um rosto, uma voz e um nome. Uma guerreira já experiente em lutas sociais diversas, ganhadora de premios, internacionalmente respeitada: Sabrina de Campos. 

Sabrina Bittencourt diante da Basílica de Santa Maria del Pi, fotografada por Ale Ruaro, em uma manifestação performática silenciosa.

E  DE REPENTE 
O jogo virou. E legalmente. 

Os nomes dos abusadores jogados aos quatro ventos. A identidade das vítimas, protegida. Vídeos, textos e prints, espalhados como folhas numa tempestade por toda a rede social. Varrendo o silenciamento pra longe num tufão. Eparrey!  
As mulheres começam a se articular e a se unir em rede. Gritam “Já basta!” 
Psicólogas voluntárias, mulheres e preparadas chegam trazendo o tratamento necessário. O alívio da psique. Advogadas guerreiras, voluntárias, chegam trazendo o estudo, a coragem e a proteção contra a violência do Estado sobre denunciantes. Jornalistas honestos e honestas fazendo um jornalismo de uma qualidade que como há muito não se via nesse país. Promotoras e juízas comprometidas e sérias tomam a frente e acolhem as mulheres que conseguem chegar até o ponto das denúncias formais. 

A merda jogada no ventilador agora pinga pelas paredes. Homens de bem, conhecidos e desconhecidos, agora fedem a merda e porra. Velhas e apodrecidas. Manchando o branco de seus santos mantos e paróquias imaculadas. 

E o buraco vai ficando cada vez mais embaixo. Por trás dos abusos sexuais, descobrem-se outros crimes: exploração de menores, trabalhos análogos à escravidão, tráfico humano, de mulheres e de bebês, mineração e garimpo ilegal, quadrilhas que vão de milicias a governantes. Nacionais e internacionais A lama cósmica é revirada como num tsunami. Rompe-se Brumadinho, lembra-se de Mariana, A Esquecida – e ninguém sabe o que fazer com tanta lama. Na vida e nos noticiários.  

Do lado de lá, eles ainda têm os corruptos do Estado. As armas. As mentes de seus seguidores e discípulos, colheita fresca dos abusos e lavagens cerebrais semeadas de longa data. E eles irão contra atacar. 

O opinião pública dança pra lá e pra cá. A sociedade não sabe o que pensar, não sabe o que dizer, quem apoiar. O sentimento de decepção, dúvida, vergonha, culpa, tudo se mistura.  

Os meios espirituais parecem estar fechados para balanço. Poucos realmente se posicionam. Pra um lado ou para o outro. Parece ter uma oração silenciosa e desesperada no ar para que tudo isso seja esquecido.  

As mulheres ainda lutam para serem levadas a sério por muitos.  Alguns se assustam com o impacto desse berro, desse grito. Outros, temem pela violação de seus próprios corpos no sistema prisional. Temem que sejam os próximos. Ou seus amigos, seus ‘bróders’ queridos e amados. Mas, se não denunciamos formalmente, nem a mídia, nem a opinião pública, nem nossas comunidades e famílias são capazes de nos levar a sério e nos ouvir. Ainda assim, muitas mulheres decidem não abrir processos formais na Justiça por não se sentirem representadas pelo sistema jurídico prisional. 

São decisões muito difíceis que uma mulher tem que tomar quando sofre um abuso. 
Lutamos para que cada mulher seja soberana diante das próprias decisões sobre a violência que sofreu, independente do caminho que ela escolha trilhar. 

E enquanto essas decisões difíceis são tomadas,  eles, que se sentem ameaçados, se adaptam.  Se juntam, se articulam, conversam entre si. Do mais insignificante ao mais poderoso, rico e influente, com toda naturalidade se aliam e traçam uma mesma estratégia. A mesmíssima de sempre, a única que eles sabem fazer: atacar e desqualificar as mulheres. Atacar as denunciantes, as vítimas, as que já falaram e as que possam vir a cogitar a possibilidade. E fazer das pouquíssimas que ousaram de expor publicamente, um exemplo para as demais! 

A holandesa que foi à TV aberta: “Era puta!” 
A Sabrina “Ela é louca!” 
As denunciantes “Problemáticas! Vingativas!” 
Até as senhoras de mais de 60 anos que anonimamente deram depoimentos para a mídia “Velhas caducas!” 

E na boca do povo, nas entrelinhas de seus textos e falas eles deixam códigos a elas, indiretas, ameaças. Noutros casos, eles mandam matadores, ameaças diretas, as mulheres e a suas famílias. Seus filhos e filhas. Seus pais. As táticas variam. De acordo com o nivel de influência, recursos e seriedade dos crimes. 

Eles acionam seus bróders, seus contatinhos no Estado. Afinal, acusados são seus padrinhos, seus gurus, seus parças, ou, seus clientes (mercenários que são).  Dentro do Estado, o combate segue: juízas e promotoras cansadas da aniquilação das mulheres, peitam de frente com esses homens em aliança. E então fica claro como a luz do dia, como diria uma vitima americana “A masculinidade tóxica é uma seita”. 

O contra ataque é brutal. É organizado. A macheza cósmica foi desafiada. E precisa responder à altura. 

E eles perseguem, perseguem, perseguem. 
E foi uma únca piscadela, uma desatenção, um momento de lapso da equipe de segurança… E pronto. Os assassinos encontraram a família de Sabrina. Aquela que soltou o primeiro post, com os nomes dos “homens de bem” abusadores. Até agora ela e sua fámília se mantinham escondidos, eternos viajantes pelo mundo, sem descanso, de 15 em 15 dias mudando de lugar. Muitas vezes, separadamente. Para escapar de ameaças de morte que ela havia herdado depois de ter se envolvido com tantas causas importantes pelo mundo. 

Mas então, era tarde. 

Sabrina Bittencourt, no dia de Iyemanjá, 2 de Fevereiro, sob séria ameaça, tira a própria vida para salvar a vida de sua família. 

Um grande baque em todo o movimento é sentido. Ninguém sabe o jeito certo de lidar. Vítimas colapsam. Todo o movimento corre para socorrer as que estavam com ideação ou tentativa de suicídio para que essa tragédia não se espalhe como vírus, uma onda, entre vítimas, testemunhas e denunciantes. 

E eles, seguem atacando. 
Eles não se saciam somente com a morte do rosto do movimento. 
Eles querem segurar sua cabeça. Seu corpo. 
Eles querem que seu corpo morto chegue nas mãos do Estado para que eles possam ver, invadir, fotografar, colocar nos outdoors. Usar de exemplo! 

Logo ela, que lutou tanto pela humanização da assistencia ao parto, teve que batalhar até por uma partida humanizada. 

A família, desolada, agora tem que lutar para reestabelecer seus protocolos de segurança e sobrevivência, para defender e proteger o corpo e o legado da própria mãe. O nível de desunamanidade só não é chocante para aquelas que não sentiram na própria pele a violencia desses abusadores. 

Começa a caçada pelo corpo da guerreira. Insinua-se que ela não morreu. Que ela está viva e que tudo isso foi uma grande farsa. Não porque eles próprios acreditem nisso, ou duvidem da própria capacidade de aniquilação. Mas porque precisam – A QUALQUER CUSTO – caçar os arquivos, provas e materiais deixados por ela.  

Algumas mulheres, em seu desespero, acreditam na farsa. Mulheres começam a duvidar umas das outras. A atacar umas as outras. A se hesitarem umas com as outras. 

Eles querem porque querem (e PRECISAM desesperadoramente) nos convencer e mostrar que tudo voltou a ser como era antes. Tudo voltou ao normal. Era tudo uma grande mentira. Foi apenas um lapso. Uma modinha. Uma rebeldia irresponsável e coletiva de mulheres – e que pagarão MUITO caro por terem atacado os homens de bem! 

E que agora, tudo seguirá como sempre foi… 

…SÓ QUE NÃO! 

Porque, agora, não estamos mais sozinhas! 
Temos umas às outras. 

Mesmo sem rosto, nosso movimento e luta agora tem corpo, cor, tamanho e nome: COAME.  
Um corpo coletivo. Deixamos de ter um unico rosto, para termos todos os rostos das mulheres vítimas de abuso no meio espiritual.  

Sabrina deixou a nós pilhas de documentos. Vídeos, textos, materiais. NOMES. Datas. Contatos. Todas as devidas instruções com as devidas pessoas. Vários braços e várias cabeças espalhadas pelo mundo inteiro – dando continuidade as denúncias, processos e redes.
Porém, agora, tudo está muito mais maduro do que quando o movimento começou, meses atrás: a rede está armada. Tecida. Pronta. Somos imparáveis. 

O patriarcado vai à loucura e segue atacando. 
Fake news, youtubers, lives, e toda a capacidade da internet de multiplicação aplicada em distorcer, desqualificar e adulterar a narrativa a todo custo.  
A confusão é o objetivo principal que gera exaustão mental nas pessoas bem intencionadas tentando acompanhar os casos.  
Estratégia já bem conhecida, atual e difundida mundo afora.  

No dia 8 de março de 2019, dia internacional da mulher, mais uma tentativa de escarnecer tudo que temos movimentado: uma matéria em revista de grande circulação nacional em tom de compadecimento a aquele considerado o maior estuprador do mundo, uma entrevista direto da prisão, em que ele alega estado de saúde física e mental frágil, no mesmo dia de avaliação da possibilidade de habeas corpus do mesmo po motivos de saúde e de idade avançada.  

Mas eles não saíram vitoriosos. O abusador segue preso e sua história foi desmentida pela promotoria na mídia “nenhuma questão que diferencie o quadro dele de outros presos”. Para alívio e segurança de suas centenas de vítimas, que ainda são ameaçadas, o abusador se manteve preso.  

Não tem sido em vão nossa luta.  

As mulheres do mundo estão assistindo. Ansiosas. Como exemplo de tatica de resistência. Que funciona. Que sobrevive. E nós, estanos ansiosas por ensinar, repassar essas táticas, replicá-la, aprimorá-la e disponibilizá-la para vários outros meios. E é por isso que eles estão furiosos e apavorados. Eles sabem do Poder da Rede. Que multiplica rápida e gratuitamente o que deveria ser de exclusividade deles proprios: a narrativa, em primeiro lugar.  

Um método que coloca o Estado no seu lugar: submisso à Constituição. Uma Constituição que também sofreu abuso e se cansou de silêncio! 

Mulheres sobreviventes de todos os cantos, a sua voz é a nossa voz! 
Vem!

Só… Vem. 

Axé! Amem! Shalom! Jay Ma! Saravá! Om Shanti!  

EQUIPE COAME

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