Sobre o COAME

 

 

 

 

O COAME – Combate ao Abuso no Meio Espiritual é um movimento, que nasce de uma necessidade social de criar vias de relatos anônimos ou autorais de abusadores do meio espiritual e religioso, para apoiar no direcionamento de ações de emergência, como por exemplo, consolidação de uma rede de apoio de terapeutas e advogadas voluntárias, de prevenção e articulação com outros grupos nacionais e internacionais, para proteção da vida de milhares de pessoas.

Somos um grupo composto majoritariamente por mulheres, que sobrevivemos a abusos no meio espiritual, e conseguimos, de alguma forma, encontrar formas para lutar contra eles. Para cada uma de nós aqui, existem muitas outras mulheres que não tiveram estrutura se quer para falar sobre os abusos que vivenciaram. Mas estamos decididas a romper esse silêncio utilizando-nos das plataformas virtuais para tal.

O anonimato desse grande contingente de mulheres e homens vítimas de abuso se faz necessário nesse momento por diversos motivos. Alguns exemplos:

  • Algumas de nós ainda temos vínculos de comunidade (co-habitação, divisão de tarefas como cuidado e educação de nossos filhos ou vínculos de amizade) com pessoas que ainda reconhecem como “mestres” aqueles que foram autores dos abusos que sofremos.
  • Algumas de nós somos figuras públicas.
  • Algumas de nós somos parentes de nossos abusadores.
  • Nem todas nós abrimos ou pretendemos abrir processos jurídicos contra nossos abusadores. Ou não conseguimos acesso a advogadas, ou não confiamos no sistema jurídico como um todo, ou simplesmente não temos estrutura psicológica para passar novamente por todos os nossos traumas para fazer uma denúncia¹
  • Alguns abusadores fizeram ou fazem ameaça às vítimas. Algumas mais diretas, outras mais sutis, nas entrelinhas de falas públicas, textos em redes sociais entre outros.
  • Alguns abusadores possuem materiais ou informações de nossa intimidade que usam como chantagem caso decidimos expôr o que vivemos.
  • Algumas de nós nos encontramos em situações de saúde mental extremamente frágil. Ideação e tentativa de suicídio, ansiedade, depressão, distúrbios alimentares entre outros quadros. Nem todas nós temos acesso a profissionais de saúde mental nesse momento.
  • Receio de sermos desacreditadas em nossa palavra contra de um “Mestre”
  • Medo de processos por difamação e calúnia. A lei hoje em dia considera que uma vítima só pode falar publicamente sobre seu agressor sem recear um processo se este já tiver sido denunciado, julgado e condenado nos termos da Lei.
  • Além das questões psicológicas e legais, muitas de nós ainda estamos nos recuperando financeiramente do período em que estivemos ligados aos grupos e líderes abusadores.

Ao longo dos últimos anos, diversos grupos espirituais e religiosos têm sido denunciados dentro de suas comunidades e círculos, com líderes e/ou discípulos/fiéis abusadores de diversas naturezas. Alguns já têm processos em andamento, outros ainda não começaram a ser investigados.  

Os casos eram pulverizados, e, para cada uma de nós, eram casos isolados. 

Até que no final de agosto de 2018, um post da ativista e empreendedora social, Sabrina Bittencourt viralizou. O post continha um vídeo em que ela convidava mulheres para enviarem seus relatos de abuso a ela, e em contrapartida ela se comprometeu a manter os nomes das vítimas em anonimato e apoiar os casos mais urgentes, mobilizando apoios diversos. Em poucos dias, centenas de mulheres reviveram psicológica e emocionalmente seus piores traumas para conseguir colocar por escrito o que vivenciaram.

Em apenas um mês, Sabrina recebeu 103 relatos, um total de 13 líderes espirituais abusadores. Foi então que ficou claro o tamanho dessa causa. Começamos a nos organizar, silenciosamente, buscando orientação de advogadas e assessoras experientes nesse tipo de caso. Nisso, tivemos a ideia de criar o COAME, uma central independente, anônima e virtual, que fosse capaz de concentrar esse movimento.

Sabrina Bittencourt é um elemento central nisso, porque expõe sua própria imagem e segurança para nos representar de forma pública na mídia e nas redes sociais. Isso só é viável por conta de duas décadas de dedicação a diversas formas de ativismo que lhe proporcionaram a experiência necessária para exercer essa função. O fato de ela não estar residindo no Brasil também influenciou fortemente, pois alguns dos abusadores possuem aliados poderosos na política nacional e ameaçam as vítimas.

Através dos esforços dessa rede de mulheres e homens, conseguimos acionar a grande mídia para amplificar nossas vozes. Até esse momento, a maioria das pessoas ainda duvidava de nós em nossos meios, e, por pouco o ciclo de silenciamento não aconteceu novamente. Pedro Bial foi um corajoso ícone da mídia que amplificou nossa voz ao qual somos gratas, mas, ao contrário do que tem sido dito, não foi ele que iniciou esse movimento. Até o tema ter chegado na grande mídia, houve muito trabalho voluntário, de diversas mulheres e homens, num esforço coletivo.

Outro ponto importantíssimo é que, até o presente momento, a grande mídia deu bastante enfoque para dois abusadores: Prem Baba e João de Deus. Esses são apenas dois de uma lista muito maior de abusadores, que, ainda que são sejam tão conhecidos quanto os dois, têm causado severos danos a seus seguidores. Temos a consciência de que para além dos nomes de abusadores que já chegaram até nós, há ainda muitos outros, de grupos menores ou maiores e que eles vêm de todas as tradições espirituais e religiosas: grupos espíritas, budistas, tântricos, grupos de meditação, nomes da igreja mórmon, evangélica, católica, círculos de sagrado feminino, neopaganismo, entre diversas outras. 

Para o ano de 2019, estabelecemos como metodologia de trabalho, um apoio à jornalistas sérios e comprometidos de todo o mundo, além  de colaboração intensa com órgãos de justiça, para facilitar a propagação de informações relevantes nesta área, expor de forma responsável os relatos das vítimas e prepará-las para enfrentar seus piores pesadelos. Pretendemos assim, como grupo horizontal, não hierárquico e coletivo, mostrar à todas e todos que nos buscam, que não estamos sozinhas e queremos transmutar nossa dor, protegendo, escutando e valorizando a vida de cada pessoa que nos busca!